Contrato de Três MesesEpisódio 1
Cláusula sete
O contrato tinha doze cláusulas, e Marina Albuquerque leu todas três vezes antes de pegar a caneta.
Do outro lado da mesa de vidro, no trigésimo andar de um prédio no Ecoville, Caio Bastos esperava com a paciência de quem nunca perdeu uma negociação. Trinta e quatro anos, terno cinza-chumbo, relógio que custava mais do que a torrefação inteira do avô dela. Dono da Bastos & Cia, a maior rede de cafeterias do Sul. O homem que, segundo o jornal de domingo, ia comprar o Café Albuquerque por um preço "humilhante, mas justo".
— Você está relendo a cláusula sete — ele disse, sem olhar o papel.
— Estou.
— É a única que não está aberta a negociação.
Marina leu em voz alta, porque queria que ele ouvisse como soava:
— "Cláusula sete. Contato físico entre as partes fica restrito a eventos públicos, na medida necessária para tornar o noivado verossímil. Em ambiente privado, as partes manterão distância cordial." — Ela ergueu os olhos. — Distância cordial.
— Um metro, se você quiser medir.
— E quem decide o que é "necessário" num evento público?
Ele inclinou a cabeça. Pela primeira vez na reunião, quase sorriu.
— Você — ele disse. — Eu só obedeço.
O acordo era simples, e era um absurdo. O banco ia executar a dívida do Café Albuquerque em noventa dias. A Bastos & Cia ia abrir capital em noventa dias e precisava, segundo os consultores, de "uma história humana" para os investidores. A rede gigante que se apaixona pela torrefação de família. O CEO frio que se apaixona pela herdeira teimosa. Três meses de noivado, fotos, jantares, uma ou outra entrevista. Depois, uma separação amigável, o banco pago, a marca do avô preservada, cada um para o seu lado.
Ninguém precisava gostar de ninguém. Estava escrito na cláusula três.
Marina assinou. Ele assinou logo abaixo, uma assinatura rápida, firme, que rasgou um pouquinho o papel.
— Primeiro evento hoje à noite — ele disse, se levantando. — Lançamento da coleção de inverno. Fotógrafos. Uma colunista que me odeia. Você tem vestido?
— Eu tenho trinta e um anos e uma torrefação, Caio. Tenho vestido.
— Ótimo. Passo às oito.
Ele estendeu a mão. Ela apertou. A mão dele era quente e seca, e ficou na dela um segundo além do protocolo. Marina soltou primeiro.
— Distância cordial — ela lembrou.
— Ainda estamos em ambiente privado — ele concordou, e foi embora.
O lançamento era no terraço de um hotel no Batel, cheio de luzes penduradas e gente que ria alto demais. Marina chegou de vestido verde-escuro, o cabelo solto, os saltos que ela odiava. Caio a esperava na entrada e, quando a viu, ficou parado por um instante, com a taça de espumante a meio caminho da boca.
— Que foi? — ela perguntou.
— Nada. — Ele ofereceu o braço. — Os fotógrafos estão à esquerda. A colunista, à direita, de vermelho. Sorria para os dois.
Ela sorriu para os dois. Durante uma hora, fizeram o papel: a mão dele nas costas dela ao atravessar a multidão, a cabeça dela inclinada para ouvir o que ele dizia, as risadas combinadas. Marina estava começando a achar aquilo fácil demais quando a colunista de vermelho se aproximou com um copo de gim na mão e um sorriso de faca.
— Que surpresa, Caio. Ninguém sabia desse romance. — Ela olhou Marina de cima a baixo. — Nem você, pelo jeito. Vocês parecem dois sócios.
Caio não respondeu. Olhou para Marina. Era uma pergunta.
Cláusula sete. Na medida necessária. Quem decide é você.
Marina segurou a gola do paletó dele e o puxou.
Era para ser rápido. Um beijo de foto, de capa de revista, de dois segundos. Ela sabia disso quando começou. Mas a boca dele estava com gosto de espumante, e a mão dele, que estava na cintura dela, subiu devagar pelas costas até a nuca, e ele não beijou como um homem cumprindo contrato. Beijou como quem tinha esperado muito tempo por aquilo. Os flashes estouraram em volta, e Marina não ouviu nenhum.
Quando se separaram, a colunista tinha ido embora. Os fotógrafos tinham ido embora. Metade do terraço olhava para eles.
Caio estava respirando rápido. Ela também.
— Necessário? — ele perguntou, baixo, a testa quase encostada na dela.
— Verossímil — ela corrigiu, e a voz saiu mais trêmula do que ela queria.
No carro, na volta, ninguém falou. Ele dirigia com as duas mãos no volante, olhando a rua molhada. Ela olhava pela janela as luzes passando, os dedos ainda formigando de segurar a gola dele. Na porta do prédio dela, ele desligou o motor e ficou um tempo parado.
— Marina.
— Ambiente privado, Caio. Um metro.
Ele riu, sem humor. Abriu o porta-luvas e tirou um envelope branco.
— Os consultores pediram uma coisa que eu não pus no contrato. Achei que você não ia aceitar.
Ela abriu o envelope. Um documento de duas páginas, com o timbre do banco. Embaixo, uma única linha destacada em amarelo:
"Para fins de comprovação do relacionamento, o casal deverá residir no mesmo endereço a partir de segunda-feira."
Marina levantou os olhos. Caio estava olhando para ela, e não havia nada de frio no rosto dele.
— Tenho um quarto de hóspedes — ele disse. — Com chave.
— E você?
— Eu tenho a cláusula sete.
Ela desceu do carro sem responder. Só lá em cima, encostada na porta do próprio apartamento, com o coração batendo nas têmporas, percebeu que tinha levado o envelope, e que, debaixo do documento do banco, havia um papel menor, dobrado, com a letra rápida dele:
"Eu teria assinado sem a cláusula sete. Foi você que eu achei que precisava dela."