Contrato de Três Meses
Episódio 3
Episódio 3 · 4 min

Cláusula treze

Às três da manhã, Caio já tinha ligado para o advogado, para o chefe de segurança e para uma pessoa que ele chamou só de "o Paulo", com uma voz que Marina nunca tinha ouvido nele: baixa, gelada, sem nenhuma pressa. Às quatro, todas as cortinas do aquário de vidro estavam fechadas. Às cinco, ele finalmente se sentou no sofá da sala, de frente para ela, com os cotovelos nos joelhos.

— Só três pessoas tinham o contrato — ele disse. — Eu, você e o Hélio, o advogado.

— O Hélio trabalha para você há quanto tempo?

— Doze anos.

— E eu trabalho para você há duas semanas — Marina disse. — Pode falar.

Ele levantou a cabeça.

— Você acha que eu acho que foi você?

— Eu acho que seria o mais lógico. A herdeira falida que vaza o contrato, derruba a sua abertura de capital e negocia a torrefação por um preço melhor com quem comprar os seus pedaços.

Caio ficou olhando para ela por um tempo longo. Depois fez uma coisa que ela não esperava: riu. Um riso de verdade, cansado, que fez os ombros dele relaxarem pela primeira vez na noite.

— Marina, você coou café para mim às duas da manhã com o moedor do seu avô. Você não ia conseguir me trair nem se tentasse. Você é péssima mentindo. Você ficou vermelha na cláusula sete.

— Eu não fiquei vermelha.

— Ficou. Está ficando agora.

Ela jogou uma almofada nele. Ele pegou no ar. E por um minuto, só um minuto, no meio da pior noite das duas semanas, os dois riram juntos no sofá de couro de um apartamento de vidro com as cortinas fechadas.

Depois o riso acabou, e o silêncio que ficou era diferente. Mais perto.

— Me mostra o contrato — ela pediu. — O original.

Ele foi ao escritório e voltou com a pasta de couro. Marina abriu sobre a mesa de vidro e espalhou as páginas. Doze cláusulas. As assinaturas dos dois. O rasgadinho que a caneta dele tinha feito no papel. Ela passou os olhos por tudo, e na última folha, embaixo da cláusula doze, viu uma coisa que não estava na cópia dela.

Uma cláusula treze. À mão. Com a letra rápida dele.

"Cláusula treze. Se em qualquer momento a segunda parte pedir, este contrato se encerra imediatamente, a dívida do Café Albuquerque fica quitada pela primeira parte sem contrapartida, e a primeira parte se compromete a nunca mais procurá-la."

Marina leu duas vezes. Levantou os olhos.

— Você escreveu isso quando?

— No dia em que assinamos. Depois que você saiu da sala.

— Você ia pagar a dívida de qualquer jeito.

— Ia.

— Então por que o noivado? Por que as fotos, o terraço, o apartamento, a... — Ela não terminou. Não precisava.

Caio se ajoelhou na frente da mesa de vidro, do outro lado, na altura dos olhos dela.

— Porque eu queria três meses — ele disse. — Só três. Para você me ver uma vez. E se no fim você não visse nada, a cláusula treze te deixava ir embora sem me dever coisa nenhuma.

Marina sentiu os olhos arderem. Pôs a mão sobre a cláusula treze, cobrindo a letra dele.

— Quem mais sabia dessa cláusula?

O rosto dele mudou. Ela viu a ideia chegando nele ao mesmo tempo em que chegava nela.

— Ninguém — ele disse, devagar. — Esta pasta nunca saiu do cofre do escritório. Só eu tenho a senha. E...

— E?

— E o meu pai. Que me deu o cofre. E que acha, há dez anos, que eu joguei a vida fora por causa de uma torrefação velha na Rua Riachuelo.

O celular de Caio vibrou de novo sobre a mesa. Os dois olharam. Uma nova mensagem do número sem nome, só texto desta vez:

"Às nove o banco recebe o contrato. Às nove e um, a imprensa. A não ser que a moça do café vá embora hoje. É só ela pedir. Você mesmo escreveu como."

Marina olhou para a cláusula treze. Olhou para Caio, ajoelhado do outro lado da mesa, esperando, sem pedir nada. Lá fora, atrás das cortinas, a cidade começava a clarear.

Ela pegou a caneta da pasta de couro.

Caio fechou os olhos.

Marina escreveu, embaixo da cláusula treze, com a letra mais firme que conseguiu:

"Cláusula catorze. A segunda parte não vai pedir."

Depois largou a caneta, contornou a mesa de vidro, segurou o rosto dele com as duas mãos e, desta vez, não havia nenhum fotógrafo, nenhuma colunista, nenhum evento público. Só a cozinha às escuras, o cheiro do café de duas horas atrás e o sol nascendo em cima de Curitiba.

Às 8h57, o interfone tocou.

— Senhor Bastos — disse o porteiro, nervoso. — Seu pai está subindo. Ele disse que trouxe café.

Acabou… por enquanto!
FIM!
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