Quarto 1407Episódio 1
Sexta, 23h40
Às sextas, o Hotel Araucária ficava em silêncio depois da meia-noite. Helena, vinte e nove anos, três de recepção noturna, conhecia os passos de cada hóspede no mármore do saguão.
E o homem do 1407.
Ele chegava sempre às 23h40. Nunca antes, nunca depois. Terno escuro, sem gravata, uma mala de couro gasta. Pedia o mesmo quarto, pagava em dinheiro e assinava a ficha com uma letra bonita demais para ser apressada.
O problema era o nome.
Na primeira sexta, ele foi Daniel Moreau. Na segunda, Tomás Vieira. Na terceira, Rafael Andrade.
Helena só percebeu na quarta, ao abrir o livro de registros: a mesma letra bonita assinando três nomes diferentes. Sempre no 1407.
Hoje é a quinta sexta-feira.
No lugar dela, o que você faria?
Às 23h40, a porta giratória se moveu.
— Boa noite. O 1407 está livre?
De perto, uns trinta e poucos anos, barba de dois dias, olhos castanhos a ponto de rir de alguma coisa.
— Depende — Helena respondeu. — Em nome de quem?
Ele escreveu devagar, sem tirar os olhos dela: Gabriel Lins.
— Gabriel — ela leu.
— Hoje, sim.
Os dedos dele encostaram nos dela um segundo a mais do que o necessário. Antes do elevador, ele deixou no balcão um livro pequeno, de capa azul desbotada.
— Madrugada é longa.
Contos de amor, edição velha. Uma fita vermelha marcava a página 14, e alguém tinha escrito a lápis, na margem, um 07 bem pequeno.
Uma frase sublinhada:
"Toda pessoa que chega a um hotel está fugindo de alguma coisa ou indo ao encontro dela."
Helena pegou o bloco de recados do hotel, o de papel creme com a araucária no topo. Ia mandar um bilhete para o 1407.
O que ela escreve?
O mensageiro da noite deixou o bilhete debaixo da porta do 1407.
Às 0h52, o telefone interno tocou. Ela atendeu no primeiro toque, e odiou ter atendido tão rápido.
— Recepção, boa noite.
Uma respiração calma. Depois a voz dele, mais baixa, como se estivesse deitado:
— Os dois, Helena.
Ela não lembrava de ter dito o próprio nome.
— Posso ajudar em mais alguma coisa, senhor Lins?
— Pode. Mas não pelo telefone.
A linha ficou muda.
Às duas da manhã, ela pendurou a plaquinha de "Volto em 5 minutos" e entrou no elevador de serviço.
No décimo quarto andar, as luzes acendiam uma a uma à frente dela, como se o hotel inteiro prestasse atenção.
1401. 1403. 1405.
Na frente do 1407, um bilhete no chão, com a mesma letra bonita:
"Se você leu até aqui, bata duas vezes. Se não quiser saber quem eu sou, vá embora agora, e na sexta que vem eu terei outro nome."
Por baixo da porta, a linha de luz amarela e a sombra de dois pés, parados, muito perto.
Aposte: o que Helena faz?
Aposta feita. Você descobre no cap. 2.
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