A Voz da MadrugadaEpisódio 1
Para a moça do plantão
No plantão da madrugada do Hospital Santa Clara, a única coisa que Lia não dividia com ninguém era o rádio.
Era um radinho de pilha velho, prateado, com a antena remendada com fita isolante, que ela deixava no bolso do jaleco com um fone de ouvido só, no ouvido esquerdo. O direito ficava livre para os chamados, os bipes, os gemidos do quarto 12. O esquerdo era dela. Sintonizado sempre na mesma estação: 104,7, "Madrugada", da meia-noite às quatro.
E na voz do Bento Sales.
Lia tinha vinte e sete anos e nunca tinha visto o rosto dele. Ninguém tinha. A rádio não postava fotos, o programa não tinha redes sociais, e o Bento não aparecia em lugar nenhum além daquelas quatro horas de ar. Era só a voz: grave, devagar, com uma rouquidão no fim das frases como se ele estivesse falando bem perto do microfone, quase encostado. Uma voz que parecia saber que estava sendo ouvida por gente sozinha.
O programa tinha um quadro, às 3h, que todo mundo da enfermagem conhecia. "Cartas sem remetente." Pessoas mandavam cartas de amor anônimas para a rádio, escritas à mão, e o Bento lia no ar. Cartas para ex-namorados, para vizinhas, para o moço do ônibus das seis e meia. Lia ouvia todas as noites, encostada no balcão do posto de enfermagem com um copo de café da máquina, e às vezes se pegava sorrindo sozinha às três da manhã.
Naquela terça-feira, às 3h02, o Bento pigarreou do jeito de sempre e disse:
— A carta de hoje chegou sem selo. Alguém deixou na portaria da rádio, num envelope azul. Diz assim.
Lia levantou a xícara até a boca.
— "Para a moça do plantão."
Ela parou.
— "Você não sabe que eu existo. Mas eu sei que você prende o cabelo com uma caneta às três da manhã, quando o cansaço chega. Sei que você cantarola Clube da Esquina baixinho quando acha que ninguém está ouvindo, sempre a mesma música, sempre errando a mesma parte da letra."
O café ficou parado no meio do caminho. Lia levou a mão livre à cabeça, sem pensar. O cabelo estava preso com uma caneta. Uma caneta azul do hospital, atravessada no coque.
— "Sei que você tem uma cicatriz pequena no pulso esquerdo, em forma de meia-lua, e que passa o polegar em cima dela quando está nervosa."
Lia olhou para o próprio pulso. O polegar estava em cima da cicatriz.
Ela tirou a mão como se tivesse se queimado.
— "Eu não vou te dizer quem eu sou. Ainda não. Só queria que você soubesse que, às três da manhã, quando a cidade inteira está dormindo, alguém está pensando em você do jeito que você merece. Devagar. Com atenção. Como quem lê uma carta duas vezes."
A voz do Bento ficou um instante em silêncio. Depois, mais baixa, quase só para ela:
— Assinado: "Alguém que te vê."
E então, como sempre, ele pôs uma música para tocar. Clube da Esquina. A mesma música. A que ela errava a letra.
Lia olhou em volta. O corredor da ala B estava vazio. Luz baixa, o chão brilhando de encerado, o barulho distante de um monitor cardíaco no quarto 9. A técnica de enfermagem, a Rosana, dormia sentada numa cadeira no fim do corredor, de boca aberta. O médico de plantão estava no conforto. Não havia ninguém. Não havia ninguém que pudesse ter visto a caneta, a cicatriz, o polegar.
Ela tirou o fone do ouvido com as mãos tremendo.
O corredor ficou em silêncio absoluto.
E foi nesse silêncio que ela ouviu: em algum lugar da ala B, bem baixinho, vinda de um dos quartos, a mesma música. Clube da Esquina. Saindo de outro rádio. Sintonizado na mesma estação.
Lia andou devagar pelo corredor. Quarto 5, porta fechada, silêncio. Quarto 7, a senhora que roncava. Quarto 9, o monitor. Quarto 11.
A música vinha do quarto 11.
O quarto 11 estava vazio desde domingo. Ela mesma tinha trocado os lençóis.
Lia empurrou a porta.
A cama estava feita, os lençóis esticados do jeito que ela tinha deixado. A janela estava aberta, e o vento frio da madrugada entrava balançando a cortina. Em cima do travesseiro, havia um radinho de pilha prateado, igualzinho ao dela, tocando baixinho a música que ela sempre errava.
E, encostado no rádio, um envelope azul.
Lia pegou o envelope. Não tinha nada escrito por fora. Dentro, uma folha dobrada em três, com uma letra elegante, inclinada para a direita:
"Você errou a letra de novo hoje, às 2h47, perto do quarto 3. É 'sonhos não envelhecem', não 'sonhos não esquecem'. Eu acho a sua versão mais bonita.
Amanhã, às três, eu leio a segunda carta.
Ouça com os dois ouvidos."
Lia guardou o envelope no bolso do jaleco. Fechou a janela. Desligou o rádio do quarto 11, e o silêncio que ficou foi pior do que a música.
Quando voltou ao posto de enfermagem, pôs o fone de novo no ouvido esquerdo, com as mãos geladas. A música tinha acabado. O Bento estava falando, aquela voz grave e devagar encostada no microfone:
— São três e quinze. Para quem está acordado cuidando dos outros: cuide de você também. — Uma pausa. Uma respiração. — E feche bem as janelas. Faz frio na ala B.