A Voz da MadrugadaEpisódio 3
O elevador da ala B
Lia pediu para trocar de ala na quarta-feira de manhã e não conseguiu.
— Ninguém quer a B de madrugada — disse a coordenadora, sem levantar os olhos da escala. — Você sempre quis. O que aconteceu?
Lia não soube explicar. Não dava para dizer que um rádio estava falando com ela. Não dava para mostrar dois envelopes azuis e dizer que alguém sabia da cicatriz, da caneta, da música errada. Ia parecer loucura, e o pior de tudo é que uma parte dela, uma parte que ela não queria olhar de frente, não queria trocar de ala.
Uma parte dela queria ir ao elevador.
Às 2h50, ela estava no posto de enfermagem com o fone no ouvido esquerdo e o direito também. Os dois ouvidos. Como a carta tinha pedido. O Bento estava calado havia vinte minutos, só música, uma atrás da outra, sem a voz entre elas. Ele nunca fazia isso.
Às 2h58, a música parou.
— São três horas — disse o Bento, e a voz dele estava estranha, apressada, sem a calma de sempre. — Hoje não tem carta. Hoje eu vou ler uma coisa minha.
Lia segurou a borda do balcão.
— Há três anos, eu fiquei uma semana internado no Santa Clara. Ala B. Quarto 11. Ninguém sabia que eu era o cara do rádio, eu não contei. Eu tinha perdido a voz, uma cirurgia na garganta, e passei sete noites sem conseguir falar uma palavra. Achei que nunca mais ia voltar ao ar.
O polegar de Lia achou a cicatriz.
— Tinha uma enfermeira na madrugada. Ela prendia o cabelo com uma caneta às três. Ela cantava Clube da Esquina errado, baixinho, enquanto trocava o meu soro. Ela não sabia que eu estava acordado. Ela falava comigo como se eu pudesse responder. Me contava do dia dela, do frio, da mãe que não ligava. Na última noite, ela segurou a minha mão e disse: "Você vai falar de novo, eu sinto."
Lia não lembrava. Já tinha passado por tantos quartos, tantas madrugadas, tantas mãos. Mas lembrava de ter dito aquilo para alguém, uma vez. Lembrava de uma mão que apertou de volta.
— Eu voltei a falar — disse o Bento. — E todo dia, às três da manhã, eu falo para ela. Há três anos. Ela nunca soube.
O silêncio no ar foi enorme.
— As cartas azuis não são minhas — ele continuou, mais baixo. — Eu juro. Alguém descobriu. Alguém que estava naquele hospital também, e que sabe de mim, e sabe de você. Eu recebi a primeira carta e li no ar porque achei que, se você ouvisse, ia tomar cuidado. Depois eu não consegui parar de ler, porque era a única forma de falar com você sem você saber que era eu.
Ele respirou.
— Lia. Eu estou no estacionamento do hospital agora. Programa gravado daqui para frente. Eu não vou subir. Eu não vou chegar perto do elevador. Se você quiser me ver, eu estou no carro prata perto da cancela. Se não quiser, eu vou embora e você nunca mais vai ouvir a minha voz fora do rádio.
A voz cortou. Entrou uma música gravada.
Lia tirou os dois fones.
O corredor da ala B estava em silêncio. A Rosana não estava na cadeira. O monitor do quarto 9 tinha parado de bipar, e ela correu até lá antes de pensar em qualquer outra coisa. O paciente dormia. O monitor estava desligado da tomada. Alguém tinha desligado.
Ela religou com as mãos tremendo. O bipe voltou.
Quando saiu do quarto, o elevador da ala B estava aberto.
Luz acesa. Alguém dentro. Um homem de costas, alto, de casaco escuro, olhando para o espelho do fundo, onde ainda dava para ver, apagadas pela metade, as letras escritas no vapor na noite anterior.
Lia parou no corredor, a três metros da porta.
— Bento? — ela chamou.
O homem não se virou. Começou a cantarolar, baixinho, a música do Clube da Esquina. A mesma. Chegou na parte que ela sempre errava.
— "Sonhos não esquecem" — ele cantou.
Errado. Do jeito dela.
Lia deu um passo para trás.
Lá fora, pelo vidro do fim do corredor, ela via o estacionamento. A cancela. Um carro prata parado debaixo do poste, com a luz de dentro acesa e alguém ao volante, imóvel, esperando, de cabeça baixa.
No elevador, o homem de casaco escuro finalmente virou o rosto, devagar. Lia viu primeiro o sorriso. Depois a caneta azul do hospital presa no bolso do casaco.
— Oi, Lia — ele disse, com uma voz que não era grave, nem rouca, nem devagar. Uma voz comum. Uma voz que ela conhecia de algum lugar. — Você trocou o meu soro também. Mas você não lembra de mim, né?
As portas do elevador começaram a fechar.
Ele pôs a mão entre elas.